Voltar A rota do Gamonéu, o queijo que desperta paixões

2017-06-02 03:44:00.000

O queijo Gamonéu está tão ligado aos Picos de Europa que é quase impossível compreender esta iguaria gastronómica, intimamente ligada à sabedoria e à sobrevivência humana ao longo dos séculos, sem uma imersão neste ambiente tão singular que é o «ecossistema dos Picos».

Não se sabe ao certo como nem quando surgiu, nem quem foram os pioneiros na elaboração daquele primeiro Gamonéu. A única certeza é que este grande senhor da montanha e do vale faz parte do conjunto dessas criações humanas anónimas e indispensáveis.

 

Um segredo transmitido de geração em geração

 

Tanto os mais velhos como os mais jovens afirmam categoricamente ter aprendido todos os segredos da sua elaboração com os seus pais ou avós, e estes, por sua vez, com os seus antepassados. Assim, a história do Gamonéu é a do saber e do sabor transmitidos de geração em geração.

Queso Gamonéu del puerto

Existem poucos queijos no mundo que tenham duas variantes com tanta personalidade: o Gamonéu do porto e o do vale, e poucos queijos na Península Ibérica que sejam produzidos a tanta altitude, referindo-nos especificamente ao do porto.

E, claro, poucos queijos existem no mundo que tenham surgido e sejam produzidos em paisagens tão sublimes como as planícies e os pastos dos próprios Picos de Europa.

Para sermos mais precisos, dos três maciços que constituem os Picos de Europa, é no ocidental — também conhecido como Cornión — que os criadores de gado mantêm viva a produção deste tesouro de formas cilíndricas. O Gamonéu é produzido tanto nos currais como nas aldeias e amadurece em grutas, algumas das tantas que existem nos Picos de Europa, com o seu relevo cárstico e cheio de cavidades.

Duas variantes e um destino

 

O Gamonéu del puertu é, das duas variantes, a mais sazonal, uma vez que é produzido de junho a setembro nos altos portos dos concelhos de Onís e Cangas de Onís, e são numerosas e belíssimas todas as pastagens onde nasce este manjar precioso. Nomes quase míticos como Orandi, Huesera, Gumartini, Fana, Comeya, Enol ou Ercina, todos eles na vertente de Cangas, ou Soñin, Belbin, Parres, Las Bobias, Las Fuentes, Vega Mayor ou Ario, na parte de Onís, compõem a vasta geografia do Gamonéu das alturas.

No vale, a produção não é sazonal; pelo contrário, durante todo o ano, nas aldeias, trabalha-se intensamente para obter o melhor queijo.

O Gamonéu, que deve a sua denominação ao topónimo que dá nome a duas aldeias: Gamonéu de Cangas e Gamonéu de Onís, é muito mais do que um queijo. É um símbolo de identidade que perdurou e subsiste, quase milagrosamente, até aos dias de hoje. Um símbolo de identidade que combina três tipos de leite: de vaca, de cabra e de ovelha. E também um valor tradicional, que é fonte de criatividade e inovação constante para a cozinha de autor.

Ganado en el entorno de la majada de Soñin

Por isso, embarcar numa rota do queijo Gamonéu será uma experiência gratificante, educativa e muito saborosa.

 

Um itinerário delicioso

 

Um passeio pelos domínios do Gamonéu na zona de Onís vai deixá-lo francamente surpreendido para o bem, como não poderia ser de outra forma.

A sua primeira paragem nesta viagem pelo mundo do queijo será em Benia, capital do concelho de Onís e epicentro do «planeta Gamonéu», juntamente com o concelho vizinho de Cangas de Onís.

É precisamente em Benia que se celebra anualmente (no último domingo de outubro) o Concurso do Queijo de Gamonedo, um evento que ultrapassa as fronteiras locais para se tornar um grande evento gastronómico e folclórico, onde poderá provar e adquirir os melhores queijos Gamonéu do mundo, sempre num ambiente animado.

E é que Benia é uma vila com grande apelo e um encanto sereno. Bares e restaurantes onde se saboreia a cozinha caseira asturiana, à moda de sempre, com muito ambiente; pequenas e tranquilas praças para tomar um lanche, um vermute ou para conversar à volta de um café; habitantes hospitaleiros e habituados ao vaivém dos turistas; queijarias e lojas gastronómicas; hotéis de charme perfeitos para relaxar. E no centro da vila, como símbolo identitário de que estamos numa das capitais do Gamonéu, uma escultura que recria a cena repetida ao longo dos séculos na região: um pastor com o seu cão, aquele amigo fiel que o ajuda com o gado nas passagens de montanha e nos currais…

Depois de um passeio tranquilo por Benia, é altura de mergulhar na beleza das terras altas e seguir em direção às aldeias de Gamonéu de Onís e de Cangas.

Subimos e subimos, deixando para trás aldeias tão famosas como Boviabaxu ou Boviarriba, e, de repente, surge Demués, como se se desprendesse de uma colina.

 

Um caminho de sonho em direção ao curral de Soñin

 

Lá em Demués, seguirás a pé por uma trilha que te conduzirá, entre vistas panorâmicas impressionantes, até ao curral de Soñin. É um percurso ideal para apreciar a paisagem, onde verás ao longe Gamonéu de Onís, literalmente pendurado na encosta da montanha como se fosse um alpinista a fazer rapel. À medida que se ganha altitude, a paisagem vai deixando para trás a vegetação densa e transforma-se numa infinita galeria ao ar livre com uma vista de 360° sobre montanhas e mais montanhas que se estendem até ao mar. É precisamente o miradouro de Camba, a caminho de Soñin, que lhe permitirá contemplar esta beleza sem limites e tomar consciência da orografia abrupta do Gamonéu.

Vista panorámica desde el mirador de Camba

No caminho para os currais, com sorte, encontrarás pastores, com os seus rebanhos de ovelhas e cabras, com os seus cães, com as suas vacas… Perceberás que te estás a aproximar da alma do Gamonéu.

E assim, pouco a pouco, quase por magia, chega a Soñin, um curral sublime onde inicia o seu batismo nos territórios do Gamonéu do porto. Entras no mundo idílico dos pastores dos Picos de Europa que, desde tempos imemoriais, têm sobrevivido nas altas montanhas a fabricar queijos. Esses queijos que, durante décadas, lhes serviram como moeda de troca e para melhorar as suas condições de vida, outrora nada fáceis.

 

Belbín, um curral digno de um filme

 

Depois de te deleitares em Soñin (onde podes chegar de carro), podes seguir pela trilha (já a pé) que te levará até Belbín, e logo no início do caminho desfrutarás de uma vista espetacular da famosa Vega de Comella — onde outrora existia um lago — e também avistará alguns picos do maciço Ocidental dos Picos de Europa, com os seus tons calcários e os seus nevados que brilham ao sol e parecem acariciar o céu.

Logo a seguir, deparar-se-á com a vega Las Mantegas, assim chamada devido às muitas manteigas que os pastores produziam no porto. A vega é plana, verdejante, tranquila, ideal para fazer uma paragem contemplativa. Num instante, depois de atravessar a planície, Belbín surge diante dos teus olhos, onde chegarás após meia hora de caminhada tranquila a partir de Soñin.

Vega las mantegas y el cuetón

Belbín parece-lhe um grande anfiteatro verde repleto de cabanas e vacas, que, com os seus «lloqueros» (toque de campainhas), são as protagonistas de um concerto com a melhor acústica do mundo, com sons que alcançam os cumes e as nuvens.

Em Belbín, perde-se a noção do tempo e do espaço. É como se estivesse imerso num romance pastoral ou no cenário de um filme da mais pura natureza. E poderá aproximar-se da alquimia do Gamonéu do porto, se tiver a sorte de encontrar por lá os pastores.

Duas aldeias e um único queijo

 

Com muito pesar, sentirás que chegou a hora de regressar, porque, além disso, durante a subida, perdeste a visita a Gamonéu de Onís e de Cangas.

Gamonéu de Onís

A verdade é que estas duas aldeias, que partilham o nome e uma boa vizinhança, são locais onde vale a pena fazer uma paragem. Os seus habitantes são tranquilos e hospitaleiros, e rapidamente te contam todo o tipo de histórias sobre o queijo e a região, convidando-te a prová-lo, se o tiverem à mão.

Estas duas aldeias resumem na sua geografia o espírito do queijo Gamonéu: escarpadas e no alto, como se olhassem para o céu, mas com os pés bem assentes no chão. Sóbrio e humildes. Cheias de segredos. Bonitas e discretas. Cheias de sabedoria e sabor, tal como o melhor dos queijos a que dão o nome.

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